A propósito da greve dos alunos da UERN
Eu já fui dirigente sindical e já organizei greve... É, eu já fui jovem.
Contava nos dedos os companheiros que participavam ativamente do movimento grevista e fazia piquete para impedir a entrada de outros tantos nobres colegas que, curiosamente, enfrentavam as mesmas (péssimas) condições de trabalho que nos levaram a tomar o mais grave caminho que um grupo de trabalhadores - e alunos também, claro - pode considerar: a paralisação de suas atividades até que uma pauta mínima de reivindicações fosse negociada.
Mais curioso ainda é que estes mesmos companheiros que furavam a greve, seja forçando sua entrada na companhia ou aproveitando as “férias” para ir à praia ou às compras, tinham direito exatamente as mesmas conquistas que aqueles que estavam “suando a camisa” também tinham, tintim por tintim. E eram os primeiros a procurar o departamento de pessoal para saber quando seriam pagos os valores alcançados na “luta”. Não contribuíam em nada e até atrapalhavam, às vezes, mas tinham direito do mesmo jeito. Ora, isto não me parecia justo!
Meu paradigma era a justiça distributiva aristotélica, na qual o mérito é o critério central. Nesta acepção, justo é distribuir os ganhos na proporção dos méritos de cada um, pois a igualdade deve ser proporcional, de sorte que cada um deve receber de acordo com seu esforço, com seus méritos. O próprio Aristóteles, contudo, admitia uma forma de justiça dita corretiva comutativa, onde vale a igualdade matemática e onde o justo é o igual aritmético, independentemente do esforço desprendido por cada um. Há um lugar para cada coisa e, portanto, há um lugar para cada forma de justiça. E na repartição dos ganhos obtidos através de movimento grevista vale a justiça comutativa.
Desanimador, não? Muito. E aqui eu me lembro de um verso de uma canção do novo disco do Cordel do Fogo Encantando (hoje é quase uma fixação) que diz “Ela disse assim: é porque é”. É assim! Tem gente que lidera, tem gente que participa, tem gente que se esconde, tem gente que torce contra, mas todos dividirão felizes e satisfeitos os louros da campanha. É assim.
Tem uma coisa, entretanto, que aprendi ao longo de muitos dias na estrada da vida: nem tudo é repartido igualmente. Ao final de uma luta assim, tem uma coisa que eu, que lutei de fato, conquisto e aqueles outros, aqueles, não: a paz de espírito e a tranqüilidade de consciência pelo dever cumprido. Vou dormir e sonhar porque eu fiz.
P.S.: Não, ainda não. Ainda é cedo. Muitas translações serão necessárias até que o desencanto tome lugar e a tolerância seja perigosamente exacerbada.
Contava nos dedos os companheiros que participavam ativamente do movimento grevista e fazia piquete para impedir a entrada de outros tantos nobres colegas que, curiosamente, enfrentavam as mesmas (péssimas) condições de trabalho que nos levaram a tomar o mais grave caminho que um grupo de trabalhadores - e alunos também, claro - pode considerar: a paralisação de suas atividades até que uma pauta mínima de reivindicações fosse negociada.
Mais curioso ainda é que estes mesmos companheiros que furavam a greve, seja forçando sua entrada na companhia ou aproveitando as “férias” para ir à praia ou às compras, tinham direito exatamente as mesmas conquistas que aqueles que estavam “suando a camisa” também tinham, tintim por tintim. E eram os primeiros a procurar o departamento de pessoal para saber quando seriam pagos os valores alcançados na “luta”. Não contribuíam em nada e até atrapalhavam, às vezes, mas tinham direito do mesmo jeito. Ora, isto não me parecia justo!
Meu paradigma era a justiça distributiva aristotélica, na qual o mérito é o critério central. Nesta acepção, justo é distribuir os ganhos na proporção dos méritos de cada um, pois a igualdade deve ser proporcional, de sorte que cada um deve receber de acordo com seu esforço, com seus méritos. O próprio Aristóteles, contudo, admitia uma forma de justiça dita corretiva comutativa, onde vale a igualdade matemática e onde o justo é o igual aritmético, independentemente do esforço desprendido por cada um. Há um lugar para cada coisa e, portanto, há um lugar para cada forma de justiça. E na repartição dos ganhos obtidos através de movimento grevista vale a justiça comutativa.
Desanimador, não? Muito. E aqui eu me lembro de um verso de uma canção do novo disco do Cordel do Fogo Encantando (hoje é quase uma fixação) que diz “Ela disse assim: é porque é”. É assim! Tem gente que lidera, tem gente que participa, tem gente que se esconde, tem gente que torce contra, mas todos dividirão felizes e satisfeitos os louros da campanha. É assim.
Tem uma coisa, entretanto, que aprendi ao longo de muitos dias na estrada da vida: nem tudo é repartido igualmente. Ao final de uma luta assim, tem uma coisa que eu, que lutei de fato, conquisto e aqueles outros, aqueles, não: a paz de espírito e a tranqüilidade de consciência pelo dever cumprido. Vou dormir e sonhar porque eu fiz.
P.S.: Não, ainda não. Ainda é cedo. Muitas translações serão necessárias até que o desencanto tome lugar e a tolerância seja perigosamente exacerbada.

3 Comments:
Assim você me deixa mais desanimado do que os ausentes...
dezembro 20, 2006 11:46 AM
Valeu, Gilberto!!!!
Fiquei muito chateada com a conduta da maior parte da sala que não comparece às reuniões. Bjão.
dezembro 20, 2006 7:44 PM
Gostei da parte que diz:"Ao final de uma luta assim, tem uma coisa que eu, que lutei de fato, conquisto e aqueles outros, aqueles, não: a paz de espírito e a tranqüilidade de consciência pelo dever cumprido. Vou dormir e sonhar porque eu fiz."
Muito bom!
dezembro 21, 2006 11:59 AM
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