Se um dia tivesse tido vontade de mandar fazer um anel para mim, escolheria a seguinte inscrição: "Nada passa". Acredito que nada passa sem deixar rastro e que cada pequeníssimo passo que damos tem seu significado para a vida presente e para a futura. (Tchekhov)

domingo, julho 23, 2006

2H

Por razões de natureza médica, estou “condenado” a permanecer em casa, com minha capacidade de movimento significativamente restringida, por um prazo de pelo menos trinta dias, iniciados no último dia 17. Tenho lido muito (revistas e A Divina Comédia), ouvido muita música (blues, muitos blues) e assistido muita televisão (telejornais, principalmente).

Aliás, estou viciado na grade de telejornalismo global: não perco um. Recebo meu bom dia do Renato Machado e sigo até o boa noite do Jornal Nacional. E aí chega porque ninguém agüenta passar o dia inteiro vendo as mesmas notícias. A pauta é sempre a mesma, com algumas pequenas variações. Esta semana tivemos aquela guerra no Oriente Médio, aquele julgamento e aquela campanha. O mais divertido é acompanhar a agenda dos candidatos e, em particular, ouvir todo e qualquer pronunciamento da Heloísa Helena.

Hoje pela manhã iniciei minha leitura da Maldita pela seção “Veja Essa”, como faço semanalmente. E lá está ela, a Heloísa! Cito-a: “Não vou bater boca com empregadinho do presidente. Eu só quero debater com o patrão dele, sua majestade barbuda”. Devo confessar que simplesmente adorei o “sua majestade barbuda”, mas não pude deixar de lembrar de todas as outras declarações da candidata que vi/ouvi durante a semana passada.

Heloísa Helena deve ser a última pessoa íntegra e honesta que restou no meio político brasileiro. Pelo menos, é o que parece ser, a partir do que ela brada. Vi, inclusive, que um dos slogans de sua campanha será “Contra a política nojenta, vote 50”, certamente inspirado nos motes do agora comparável PSTU. 2H, se me permitem a intimidade, também tem a solução para todos os problemas do país, assim como todo e qualquer bom taxista e barbeiro. E ela os enuncia com tanta convicção, tanta certeza, tanta clareza, tanta firmeza, tanta segurança, tanta simplicidade, tanta energia, tanta determinação, tanta, tanta que o efeito é hipnótico: estou hipnotizado pela 2H. Estou considerando procura-la para finalmente resolver um problema de uma unha que teima em encravar periódica e sistematicamente.

2H esteve ontem em Natal em compromissos da campanha. Chegou cedo, pela manhã, vinda de João Pessoa, mas uma indisposição a levou ao Hospital do Coração. 2H passou mal quando chegou a Natal, ora pois! Algum sinal? Não o sei, na verdade. Talvez apenas pura curiosidade para o anedotário das campanhas políticas deste ano. Meu atual estado de slow motion não me permitiu acompanha-la aqui na cidade do sol, mas eu bem que gostaria. Gostaria de vê-la e ouvi-la, pessoalmente. Será que o efeito que ela já imprime sobre mim seria maior? Perdi a oportunidade de verificar.

Eu não vou votar na Heloísa Helena. O mandato presidencial brasileiro é de quatro anos, tempo mais do que suficiente para esse país ir mesmo para o brejo sob seu governo. Não, não voto na 2H. Agora, se tivéssemos por aqui algum reality show do tipo “Presidente por um dia”, eu adoraria vê-la participando. Quais seriam suas primeiras medidas? E, o mais importante, como elas seriam implementadas? Por enquanto, 2H arrota solução para tudo, mas não entrega como fará ou de onde obterá os recursos para realizar tudo aquilo que promete...

Será que ela já pensou nisso, por um instante que fosse? Afinal, é muito bom ser candidato inviável porque você pode falar o que bem entender e não tem qualquer obrigação de ser responsável ou conseqüente. A questão é que toda essa “pregação” helênica tem surtido algum efeito e cada vez mais eleitores têm declarado suas intenções de voto na Redentora. E se ela se tornar viável? Será que então, no escuro de seu quarto de hotel, onde quer que esteja, ela ser perguntará o que fará se for mesmo eleita? Ou deixará tudo nas mãos de Deus, aquele que ela foi invocar ali em Juazeiro, em outro compromisso de campanha? Deus é quem sabe!